terça-feira, maio 30, 2017

África o ir e o voltar


Em Outubro de 1975, encontrava-me a viver em Sines, no Palácio Pidwell, quando escrevi o meu primeiro poema, «África». De rajada, ao longo de uma noite muito escura. Dias depois, li-o ao  Al Berto e ao João do Ó. Nesses tempos, trocávamos poemas, palavras, projectos e bebíamos o bom vinho alentejano com que brindávamos a todos os futuros. Depois, nunca falei desses tempos, nunca escrevi sobre esses tempos, e não mostrei o poema a mais ninguém. Retomo-o agora, porque me parece adequado como ponto de partida para este Encontro, nas Raias Poéticas de Famalicão.

África



I

O tempo deixou-me este gosto na pele, este calor na alma,
Um nó na garganta, as mãos vazias, o corpo nu. Em carne viva.
Tatuagens de recordações, espalho-as no chão, à minha volta
Há gritos de sereia num porto e eu lambo cinzas.
Ainda estão quentes.

Onde estão todos?

Paredes nuas.
Colares de missangas vermelhas, colares de missangas negras
Um bater surdo de tambores.
Árvores dos tempos do primeiro Tempo.
E templos e véus e estradas escondidas sob o mato denso de silvas
Como puderam esconder tamanho esplendor?
Fiz-me à estrada cega e perdi-me.
Perdemo-nos todos
Uns dos outros

II

Andamos juntos e ainda não te vi o rosto.
Amei-te, e eras sempre diferente.
E contudo... se soubesses por onde te procurei.

Ouves o meu grito?

Esperei sempre que me dissesses na concha do meu ouvido:
Somos os marinheiros e o mar e o navio. Somos a tempestade e o sono.
Sonho.
Queria dizer-te isto:

Viver é amar cada segundo como se fosse o último,
Mas não é sempre assim.
Gosto de redes e de laços. Gosto de anéis.
Gostava de não gostar. 
Gostava de já não gostar.

III


Depois de enterrar os mortos 
Esqueci o local das sepulturas.
Às vezes ainda lá vou
Queimar imagens de deuses
numa lareira que nem existe,
E ouço-me
A chamar por eles.
E fico
De mãos feridas a escavar palavras e silêncios.
Procuro, procuro.
Penso: para onde vamos meu amor?

Volto sempre.
Da soleira da porta vejo-te acenar-me
Quando me viro,
Com as mãos em concha,
Protejo-me da luz para te ver bem
Antes que a estrada me engula.
Penso: porque não me prendeste
com laços e anéis nas redes dos teus braços adormecidos?
Então, volto
Sempre à espera
De ti.
Esvazio-me
E penso: quem és tu?

IV

Mar manso, mar manso…
Pescador da Ilha, onde estão as minhas redes?
No vento da tarde soltei os ramos
Na Primavera abri a copa das árvores
Chovia e entraste no meu tronco.
Tremias.
Disseste:
Tenho tanto medo. Tenho tanto medo.

Adormecemos.
Quando acordei os sons que se evaporavam da terra eram ocres,
E havia tanto fumo.
E havia tanto fogo.
E havia tanta dor.
E havia eu
Enredada em meus caminhos para lado nenhum.
Amortalhando os sete sentidos incluindo o tacto
Sondando rostos fechados diante de casas sem portas nem janelas, nem ninguém.
Eu e o meu medo insone asfixiando-me em abraços de amante obsessivo
Às vezes, o som dos sinos amansava a tarde,
Mas por muito pouco tempo.
À noite, não conseguia ouvir bater o coração escuro do mundo:
Falavam todos muito alto.
Pareciam perdidos e riam
Nem perceberam que me fui embora…

V

Quero estar só.
Quero esta solidão indizível para te encontrar amor,
Caleidoscópio de rostos, mil faces a tua,

quero saber o teu nome!

Quero rasgar tanta coisa,
Afastar estes véus, estes véus...
Regressar aos braços negros que abraçam a Terra inteira.
Farejar o teu cheiro nas flores de sangue, tão vivas dentro das suas pétalas mortas,
Enrolar-me em teu regaço denso escuro e cálido, 
Oh Mãe!
Pousar o fardo das memórias de tanto desencontro 
E recordar
Todos os teus nomes
Todos os teus corpos 
 Todos os teus cheiros 
Todos os teus sabores 
Todos os teus sons
E dizer-te:
Voltei de lado nenhum para entrar na roda das antiquíssimas danças
Ao som dos tambores da noite que tocam sob céus esmaltados de chamas.
Abraça-me muito oh Mãe de todos!
E seca o meu pranto de acabada de nascer
Porque 
pesa tanto...
O estômago vazio,
O saco vazio 
Do vagabundo,
A alma solta de quem viaja,
Este amor que sinto, esta dor que tenho,
Chamei-te tantas vezes.
Tantas vezes.
Tantas vezes.

Se ao menos soubesses como te amo.

(Manuela Gonzaga, Sines, Outubro de 1975.)
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